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Artigos

08/11/2009
Ritos de passagem

Estamos chegando, daqui há pouco, hás mais um final de ano letivo. Ovos e água combinam com esse final de etapa?   Invasão de escolas por alunos mascarados revelam um cenário de impunidade. Agressividade que extrapola o lugar social onde fica a escola.  Em bairros  elitizados é comum veículos  com dezenas de ovos  “paitrocinados“ por adultos que julgam natural essa celebração de encerramento de uma etapa de vida. Escolas reféns, educadores cerceados e uma comunidade sitiada pela barbárie e banalização da palavra celebração. Um sinal visível do medo que ronda essas comunidades é a contratação de seguranças para cuidar dos últimos dias de um ano letivo cuja culminância deveria ser apenas abraços, risos, emoção, lágrimas e uma saudade que bate no peito. A verdade é que esse é um lamentável  exercício  de involução cívica. 

O cenário universitário não difere desse clima “celebrativo”. Formaturas regadas ao consumo de bebidas alcoólicas em pleno palco. Celebra-se uma etapa de conquista profissional. Nesse abismo que é o acesso ao mundo universitário, alguém pode achar natural tais fatos. Afinal, o que são dúzias de ovos e garrafas deixadas no  palco após a formatura?   Como sair dessa redoma que nos torna objetos de vândalos, bondes e agregados? Ninguém merece isso.  

Há um rito de passagem acontecendo na vida desses alunos. A escola foi para cada um desses jovens uma verdadeira segunda casa. Ali, viveram  parte de sua infância. Nesse ambiente enfrentaram a chegada da adolescência e mergulharam no intrincado universo do verbo escolher.  Eis que é chegada a hora de partir. Deixar para trás um tempo de vida que foi precioso. Deveria ser esse o elemento central para o encerramento de um ano letivo.  Nem mesmo a gripe A e todas as mudanças de calendário, podem impedir o clima de confraternização que deve sustentar a hora em que será feita a última chamada na escola, o  Dia da Formatura.

Esse momento mágico precisa ser vivido e construído com os principais protagonistas dessa passagem: a comunidade de alunos.  Como concluir um ano letivo que seja marcante e referência para quem virá depois?  Todos merecem mais do que o legado do banho de  água ou da sujeira de dúzias e dúzias de ovos , marcas indeléveis de uma sociedade cúmplice com a impunidade  e a vida banalizada. 

Existem comunidades escolares que entregam a seus formandos a tarefa da condução da Ação Natal. São eles que definem instituições a serem beneficiadas. Assumem a tarefa de entregar e celebrar esse gesto  de solidariedade de toda a sua escola. Há uma lição de vida nesse simples exemplo. O sentimento de pertencimento  a uma instituição cuja história de vida está marcada para sempre. 

Entre estudos, ENEM e vestibular, é preciso incluir o verbo celebrar. Que tal um grande cadernão no qual cada formando possa deixar sua mensagem de vida?  Nesse clima de alegria e saudade, é bonito ver alunos concluintes pedindo que seus educadores assinem suas camisetas. Quantas vezes escutamos o  famoso” era bom e a gente não sabia o quanto que era”. A vida  é feita de ritos. A saída da escola para o ingresso no mundo universitário ou mundo do trabalho é uma passagem importante e, muitas vezes, dolorosa.  Felizes as instituições que compreendem esse momento, tornando esse último ato da vida escolar num momento de encantamento.  Deve ser gratificante deixar a vida da escola sabendo que somos especiais. Voltar como ex-aluno e poder dizer: Eu passei por aqui!

Autor: Carlos Alberto Barcellos - Professor
Sugerido por: ONG Parceiros Voluntários - canb@cpovo.net

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