Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, é autor de algumas obras que nos ajudam a compreender o momento atual pelo qual passa o ser humano. “Tempos líquidos”, um dos seus livros foi, recentemente, tema do Congresso promovido pelo SINEPE-RS, reunindo mais de dois mil educadores.
Que lições a obra de Bauman ensina para nossa vida diária, nossas relações, nosso trabalho? Vivemos tempos líquidos em que o permanente como essência da vida, deu lugar ao modismo da atualidade. O individualismo exacerbado sufocou a solidariedade. O medo da violência nos trancou dentro de nossas casas. Em ”Medo líquido”, Bauman faz uma alusão expressiva sobre a palavra terrorismo. O mundo tem medo do próximo World Trade Center. As políticas públicas reforçam a cultura de que o mundo precisa se armar para enfrentar o inimigo invisível. Que cara ele tem? Onde ele fica? Que linguagem usa? Cabe, aqui, uma pergunta didática: “Quanto de terrorismo carregamos em nossos corações”? A geopolítica da intolerância internacional chega também em nossas relações. Somos intolerantes e indiferentes aos dramas humanos dos outros. Perdemos a noção do coletivo e de compromissos comunitários. O cuidado ético e uma prática cidadã é sufocada pelos exemplos nefastos de quem usa o exercício do poder em benefício próprio. Essa lógica satânica vendida como “ jeitinho brasileiro” deveria nos encher de vergonha. Qual o jeito de ser brasileiro?
Bauman desmascara essa cultura que, construindo a idolatria, torna o objeto de consumo em algo personalizado. Há também aqui um ser humano coisificado, dominado pelo consumismo desenfreado, como se ele mesmo fosse saído da mesma máquina que o fabricou.
Daqui a pouco as cortinas se fecharão para o “Caminho das Índias”. Sai o acessório e deveria ficar o essencial. A ele, deveríamos seguir dando a atenção que merece. A lição trazida por Glória Perez ao escancarar ,em horário nobre, o tema do bullying, é aprendizagem permanente. Há uma ética das relações que perdemos diante do glamour dos modismos. Glória Perez foi didática ao nos apresentar a formação de um bulista. Será que conseguimos aprender essa lição vital?
Vivemos tempos de uma múltipla evolução tecnológica. Na contramão, involuímos civicamente. Bauman nos desafia a pensar num outro patamar de relações sociais. Entre a transitoriedade e o permanente, há verdades que são vitais. Se a educação é o único canal capaz de mudar o olhar humano, devemos nos aproximar daquilo que forja o caráter, que educa para o altruísmo, que supera a indiferença social. Tempos esses que chegam carregados de uma nova leitura pedagógica. Poderíamos chamar isso de inclusão emancipatória. A autonomia que constrói o pensamento e constrói a cidadania planetária. Estamos diante de uma missão que exige comprovados saberes , todos pautados numa relação solidária, recíproca, cooperativa, geradora da responsabilidade pessoal e social. Somente pessoas autônomas conseguem construir esses conceitos emancipatórios.
A vida é feita de escolhas. A educação exige discernimento. Educar no permanente é mais doloroso. Quando uma criança ou adolescente compreende o significado de palavras como respeito, ecologia, ética, por exemplo, aprendeu o significado daquilo que deve ser sempre a mola propulsora de todo o jeito humano de viver. Modismos passam. O duro aprendizado sobre sensibilidade e solidariedade humanas, esses permanecem. São como legados para os novos tempos.