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Artigos

08/09/2009
Entre o líquido e o permanente


Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, é autor de algumas obras que nos ajudam a compreender o momento atual pelo qual passa o ser humano. “Tempos líquidos”, um dos seus livros foi, recentemente, tema do Congresso  promovido pelo SINEPE-RS, reunindo mais de dois mil educadores.

Que lições a obra de Bauman ensina para nossa vida diária, nossas relações, nosso trabalho? Vivemos tempos líquidos em que o permanente como  essência da vida, deu lugar ao modismo da atualidade. O individualismo exacerbado sufocou a solidariedade. O medo da violência nos trancou dentro de nossas casas.  Em ”Medo líquido”, Bauman faz uma alusão expressiva sobre a palavra terrorismo. O mundo tem medo  do próximo World Trade Center. As políticas públicas reforçam a cultura de que o mundo precisa se armar para enfrentar o inimigo invisível. Que cara ele tem? Onde ele fica? Que linguagem usa?  Cabe, aqui, uma pergunta didática: “Quanto de terrorismo  carregamos em nossos corações”? A geopolítica da intolerância internacional chega também em nossas relações.  Somos intolerantes e indiferentes aos dramas humanos dos outros. Perdemos a noção do coletivo e de compromissos comunitários. O cuidado ético e uma prática cidadã é sufocada pelos exemplos nefastos de quem usa o exercício do poder em benefício próprio. Essa lógica satânica vendida como “ jeitinho brasileiro” deveria nos encher de vergonha. Qual o jeito de ser brasileiro? 

Bauman desmascara essa cultura  que, construindo a idolatria, torna o  objeto  de consumo em algo personalizado. Há também aqui um ser humano coisificado, dominado pelo consumismo desenfreado, como se ele mesmo fosse saído da mesma máquina que o fabricou.

Daqui  a pouco as cortinas  se fecharão para  o “Caminho das Índias”. Sai o acessório e deveria ficar o essencial. A ele, deveríamos seguir dando a atenção que merece. A lição trazida por Glória Perez ao escancarar ,em horário nobre, o tema do bullying,  é aprendizagem permanente. Há uma ética das relações que perdemos diante do glamour dos modismos. Glória  Perez foi didática ao nos apresentar a formação de um bulista. Será que conseguimos aprender essa lição  vital? 

Vivemos tempos de uma múltipla evolução tecnológica. Na contramão, involuímos civicamente. Bauman nos desafia  a pensar num outro patamar de relações sociais. Entre a transitoriedade e o permanente, há verdades que são vitais. Se a educação é o  único canal capaz de mudar o olhar humano, devemos nos aproximar daquilo que forja o caráter, que educa para o altruísmo, que supera a indiferença social. Tempos esses que chegam carregados de uma nova leitura pedagógica. Poderíamos chamar isso de inclusão emancipatória. A autonomia que constrói o pensamento e constrói a cidadania planetária. Estamos diante de uma missão que exige comprovados  saberes , todos pautados numa  relação solidária, recíproca, cooperativa, geradora da responsabilidade pessoal e social.  Somente pessoas autônomas conseguem construir esses conceitos emancipatórios.

A vida é feita de escolhas. A educação exige discernimento. Educar no permanente é mais doloroso.  Quando uma criança ou adolescente  compreende o significado de palavras como respeito, ecologia, ética, por exemplo, aprendeu  o significado daquilo que deve ser sempre  a mola propulsora de todo o jeito humano de viver. Modismos passam. O duro aprendizado sobre sensibilidade e solidariedade humanas, esses  permanecem. São como legados para  os novos tempos.

Autor: Carlos Alberto Barcellos - Professor
Sugerido por: ONG Parceiros Voluntários - canb@cpovo.net

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