Daqui a um ano e pouco estaremos diante de mais um pleito eleitoral. Votar? Em quem? O que fazem esses cidadãos cujos projetos políticos são exercícios de vaidade pessoal, práticas de clubes fechados e a sociedade civil que se dane?
Ouviremos daqui a pouco belos discursos chegando de todas as bandeiras partidárias. O Rio Grande, orgulhoso de sua história pautada por condutas éticas, vê questionado pelo Ministério Público a tese de que “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”. O contraditório, nesse momento, parece ser que, quem acusa de improbidade pública, defende ou cala diante da história do atual senado brasileiro. Existe um parâmetro ético para separar essas duas posições? Quando o público se torna privado, lá e aqui, tomar partido pode significar partidarizar o próprio conceito do que seja ética. Os milhões desviados do DETRAN é algo sério, tão nefasto quanto o circo de horrores patrocinado pelos senhores senadores da república brasileira. A condenação que vem de lá precisa encontrar eco em solo gaúcho. Como é possível defender uma Brasília que se parece como uma ilha da fantasia? Como é possível fechar os olhos diante do que vemos todos os dias na imprensa gaúcha sobre a corrupção do poder público de nosso Estado?
Como falar disso para crianças e jovens? O que responder quando um adolescente perguntar o que é improbidade? Diante do conceito apresentado, ele concluirá: “Afinal, votar para quê?” Na escola e em casa são pautados conceitos que conduzem para a valorização da vida e do valor da coletividade. Estamos diante de um choque de realidade cruel. A mídia escancara como se produz, com o perdão da palavra, a sacanagem política. Denuncia como se faz o tal de caixa dois. O engraçado nessa história é a existência de um código civil para alguns e um penal para outros. Sim, o chamado “ladrão de galinhas” é julgado e condenado conforme os códigos penais. Outros recebem o nobre título de que, em nome do segredo da justiça, precisam esperar para terem seus julgamentos consumados. Como povo sem memória é povo sem história, lá voltam eles na próxima eleição com a mesma “churumela de sempre”, um discurso politicamente correto, negado pela prática do mandato.
Então fazer o quê? Alguns amariam a volta do cerceamento da liberdade de expressão. Merecemos mais do que dizer que tudo vira pizza em política no Brasil. Seguindo na análise da pergunta, é urgente trazer a palavra política para a vida de toda a cidadania. Não para ficar apenas discutindo isso de cinco em cinco anos. É preciso formar leitores sociais capazes de ler a realidade com lucidez. A sociedade civil, que somos todos nós, está merecendo verdadeiras aulas de politização. A ética não pode casar com interesses partidários. Verdade é que o “pior analfabeto é o analfabeto político”, texto consagrado de Bertold Brecht.
Nossas façanhas sejam as lições do dia a dia. Que cheguem os jornais para dentro das salas de aula. Que esse papo seja conversa real feita na hora das refeições. Essa ternura de amar o que é público, embora possa parecer complicado, é nossa resposta. A educação é o único caminho possível para a formação de uma nova geração alfabetizada na arte de entender o que significa e como se produz bem comum. A busca da verdade é a fonte de libertação. O legado que devemos deixar para as novas gerações é muito maior do que esse discurso ambíguo, o de lá e o daqui. Ao falar de ética estamos falando do quê?