Temas transversais incomodam no ato de educar. Ensinar a pensar é dar respostas prontas? A habilidade na formulação da pergunta deve inquietar uma platéia, por si só, inquieta. Ousemos perguntar, por exemplo, se cotas na universidade é uma questão de justiça ou mais uma forma de preconceito? Vamos invadir o espaço da Biologia e perguntar sobre o tema dos embriões. Outra pergunta que incomoda é a redução da maioridade penal. Essa crônica tem a função de estimular o debate e a responsabilidade que temos em não fugir de questões essenciais que estão no centro da vida de nossos alunos.
Quando uma escola aprofunda a questão do bullying comprovando que a gravidez na adolescência é um sinal da excludência, devolve para a comunidade escolar a tarefa de pensar sobre as diversas formas de marginalizar pessoas. Essa escola que fica na grande Porto Alegre, achou o caminho para falar de um tema transversal delicado. A sexualidade é tema obrigatório em qualquer disciplina. É tarefa de todos nós comprarmos essa briga em nome de uma formação conscientizadora. Fui assistir esses dias, a peça gaúcha Adolescer. Sentei no último banco e fiquei a refletir sobre a relação entre palco e platéia. Jovens atores transitam por temas sérios como se o palco fosse um espelho dos que ali estão sentados. O público acha graça do jovem gay. Ri diante do estereótipo do nerd e do emo, configurados de uma forma exemplar por seus atores. A peça funciona como uma análise coletiva sobre nossas neuras. Ela reflete uma dura realidade. É possível estabelecer limites entre o ético e o senso comum? O senso comum legitima tudo aquilo que é risível. Porém, entre o risível e a realidade, escondem-se dores e uma profunda crueldade. Jovens se questionam no palco e nos fazem pensar.
Adolescer não é apenas um espetáculo cênico muito bem elaborado. Aliás, nessa linha de pensamento, segue a abordagem muito séria da peça “O Exército de Sonhos” que apresenta, com a seriedade devida a equação irreconciliável entre bebida, direção e velocidade. O fato de ser assistido por uma infinidade de escolas, jovens e pais, coloca-o como uma referência obrigatória em nome da valorização da vida. Novamente é o palco que questiona a platéia, quase sempre emocionada, sobre a barbárie da guerra do trânsito.
Recentemente, a obra “Filhote de Cruz Credo”, de Fabrício Carpinejar foi transformada em espetáculo teatral para pensar em voz alta o quanto de bulistas existe dentro de nós. Esclarecendo melhor: bulista é aquele que pratica bullying de uma forma recorrente. Recomendo a leitura do livro para adolescentes, independente da disciplina escolar que irá puxar essa discussão.
Tudo isso para afirmar que a poesia precisa ser revivida. Aprender que Machado de Assis é muito mais do que apenas leituras obrigatórias de preparação ao Vestibular. Pensar incomoda. Perguntar é uma habilidade de quem acredita que não tem a tarefa de dar a resposta pronta. A escola é um grande jardim. Somos todos jardineiros a cuidar e a lançar sementes que se transformem em fontes de vida e de esperança.
Adolescer, O Exército de Sonhos, Filhote de Cruz Credo afirmam uma verdade vital: “A vida da escola precisa encontrar a escola da vida.”