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Artigos

01/07/2009
Educar na Contradição

Motorista com a carteira vencida em São Paulo atropela e mata sete pessoas. Os policiais de plantão resolvem não fazer exame de teor alcoólico, achando que o sujeito poderia não ter ingerido nenhuma bebida. Uma fiança de um mil e duzentos reais libera mais um assassino de plantão sob a alegação de que não houve intenção.

O outro cenário chega a ser grotesco. Uma festa vip a bebida é consumida pela bagatela de seis mil reais. Num país que mistura desdentados com uma burguesia que ostenta o saldo de sua conta bancária, nada que as contradições do cotidiano nos ensinem todos os dias. Um cenário de luxo cruzando com o lixo de nossa indiferença social.

Brasília e seus contratos secretos apenas desvelados pela existência de uma imprensa vigilante e por uma cidadania que se nega a entregar os pontos diante de tanta sacanagem explicita. E dizer que os Paralamas lançaram anos atrás uma canção chamada “os trezentos picaretas”. Na época, foi um alvoroço de indignação dos senhores que apenas defendem seus próprios interesses.

Pois é, amanhã tem aula. Há um conteúdo a ser trabalhado chamado ética, justiça, respeito, integridade. Crianças, adolescentes e jovens buscando parâmetros e referências de vida. O desrespeito pela vida e por tudo aquilo que é público parece funcionar como um fundamento a ser seguido. Falar em regras e condutas cidadãs quando a realidade desvela a impunidade, é um desafio pedagógico imenso. O andar de cima e o de baixo são parceiros da linguagem de leis que favorecem a banalização. Um cara com carteira vencida paga uma fiança. O preço foi duzentos reais por vida assassinada, entre elas, um bebê de nove meses que começava a dar seus primeiros passos e a pronunciar suas primeiras palavras.

Para onde vamos com nossa civilização? Uma champanhe consumida por seis mil reais numa noite também regada a cocaína. Vazio existencial completo. Não há consciência em atitudes desse tipo. Nós, educadores, de todos os lugares sociais, somos teimosos. Negamos a jogar a toalha e nos dar por vencidos diante de um cenário que desmente tudo o que podemos construir em benefício de uma geração que quer crescer sabendo que viver vale à pena. Sonham com o dia em que o poder será entendido como serviço real ao bem comum. Imaginam que a palavra autoridade seja sinônimo de referência humana.  Alguém a quem seja possível escutar e se  encantar.  Quando penso que a Doutora Zilda Arns, através da Pastoral da Criança, reduziu a mortalidade infantil no nordeste com um soro ao custo de um real na época, onde estão os outros que detém o poder das urnas, transformando o público em privado?

A sociedade civil que somos todos nós merece muito mais que tudo isso. Merece respeito e o direito de ensinar que leis devem ser feitas para proteger, cuidar e abençoar a dignidade humana.

Somos insistentes. Cremos que a educação é o único caminho possível para mudar todo esse caldo que nos indigna. Apesar de vocês, seguiremos nas ruas plantando a semente de uma palavra que seja o contraditório daquilo que vemos todos os dias.

Autor: Carlos Alberto Barcellos - Professor da Rede Franciscana Bernardina de Educação
Sugerido por: ONG Parceiros Voluntários

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