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Artigos

09/06/2009
A educação do cotidiano

Alegra a alma de todo o sonhador, a notícia que chega daquela escola da Zona Sul de Porto Alegre. Bombardeados que andamos por cenários de violência escolar, temos que reconhecer que um professor e seus alunos souberam fazer a diferença naquela comunidade escolar. O tema do bullying já não pode ser mais visto como novidade. Parece que estamos todos acordando para o sintoma que agride a dignidade humana, independente da idade. Essa violência silenciosa não escolhe ambiente, muito menos classe social. O que encanta nesse mestre e seus alunos é a coragem para sair da mesmice de que o cotidiano da educação não pode ser modificado. A ferramenta conceitual estava na alma desse educador. Nem sei qual a sua disciplina.  Isso é irrelevante nesse contexto. A coragem para mudar esse caldo de indiferença é que vale a pena ser anunciada como uma novidade em tempos de vida banalizada e do culto à barbárie.

Conceitos e uma metodologia profundamente juvenil fizeram com aqueles jovens dessa escola mergulhassem de cabeça nessa proposta inovadora. Ela quebra, mais uma vez, o paradigma de que nada é possível fazer.  Apaixona saber que isso se passa numa escola pública onde todas as desculpas poderiam ser usadas. Salários, condições de ambiente, alunos que não querem nada com nada, falas de nosso cotidiano.

Essa escola virou um canteiro de produção artística. Cinema feito por gente jovem com uma mentalidade capaz de transformar a indignação numa aula de cidadania a céu aberto. Deve ser gratificante para essa escola, seus mestres e seus alunos, serem vistos como uma semente de esperança num mundo que parece cansado de construir mudanças.

Imagino que os recursos para a produção de um material dessa qualidade devem ter sido escassos. De onde nasceu essa magia de mostrar que cotidiano da educação pode e deve ser educado?

As imagens na escola, o cinema, a discussão e o aprofundamento de um tema tão delicado com a geração de uma cultura antibullying, falam por si só. Exemplos como esses, deveriam ser multiplicados em todos os cantos.  Deveríamos todos fazer um mergulho profundo para bebermos da sabedoria desses mestres e dessa juventude incrível.

Eles, os jovens, quando colocados diante de desafios verdadeiros, respondem com a qualidade irreverente e inquietante, peculiar de sua idade.   Mestres que acreditam nessa possibilidade são luzes e fontes de sabedoria.

A leveza e a forma didática como o bullying é desmascarado pelos jovens atores deveria ser colocado em seminários e mesas redondas onde se teorizam cenários de violência. Alimentamos a fala panfletária, aquela que diz que tudo está errado, sem sinalizarmos para os caminhos de que uma nova educação é possível.

Uma ação límpida feita no silêncio. Virou notícia por força da utopia da sua mensagem.

Que exemplos assim frutifiquem. A coragem para mudarmos exige pequenos passos. Ela pode iniciar com o desafio que esse educador lançou para seus jovens alunos.

Impossível não deixar a ternura invadir os cenários do cotidiano do ato de educar.  Obrigado por mostrar a todos nós que é possível ainda beber da água viva que está na fonte. Basta desejar profundo.

Autor: Carlos Alberto Barcellos
Sugerido por: ONG Parceiros Voluntários

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